Menino do gueto de Varsóvia encontra família após mais de 80 anos

Em 1943, um menino de apenas dois anos foi retirado do Gueto de Varsóvia. Sem identidade, esse sobrevivente do Holocausto só encontrou sua família recentemente.

Artigo originalmente publicado em https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/menino-do-gueto-de-varsovia-encontra-familia-apos-mais-de-80-anos.phtml

POR FABIO PREVIDELLI
FPREVIDELLI_COLAB@CARAS.COM.BR
PUBLICADO EM 27/01/2024, ÀS 09H40

O ano era 1943. O mundo vivia o auge da Segunda Guerra Mundial. No Gueto de Varsóvia, um menino de apenas dois anos foi encontrado vagando pelas ruas. Em meio a revolta judaica, acabou contrabandeado para fora, provavelmente por um policial, em uma mochila.

Sua identidade era uma incógnita, afinal, não havia ninguém que pudesse atestar nem mesmo seu primeiro nome. Durante toda a infância, o garoto viveu escondido em orfanatos, ainda fugindo do antissemitismo e, principalmente, sem o entendimento do que era ter uma família.

Sua passado só foi revelado há cinco meses. Agora com 83 anos, ele descobriu sua família graças ao avanço na tecnologia do DNA; além dos esforços de uma mulher americana em rastrear sua ascendência e devido à curiosidade de um acadêmico polonês sobre a situação dos órfãos do Holocausto.

Uma nova identidade

Quando imigrou para Israel, em 1949, o menino recebeu um nome: Shalom Koray. Nos próximos meses, ele terá a oportunidade de conhecer pela primeira vez um parente de sangue.

Ann Meddin Hellman, sua prima de 77 anos, vive em Charleston, na Carolina do Sul, junto de seus três filhos e oito netos. Koray enfim terá uma família, vencendo uma batalha contra o ódio que ceifou inúmeras delas.

“Você não pode procurar algo se não sabe o que quer encontrar”, disse Koray em entrevista ao The Guardian. “Eu não sabia de nada. Se não fosse pelo teste de DNA, não haveria nada”.

Após ter sido retirado do Gueto de Varsóvia, o menino foi deixado sob os cuidados de uma instituição católica, a Saint Andrew Bobol, em Zakopane, cidade ao sul da Polônia. Por lá conheceu a judia polonesa Lena Küchler-Silberman, que havia trabalhado para a resistência.

A mulher ficou encarregada de cuidar não só de Shalom Koray, mas dos outros órfãos da instituição, com a intenção de levá-los para a Palestina. Sobre o momento do encontro com a enfermeira, ele recorda: “Ficamos ali sentados, não sei o que estávamos fazendo, um monte de crianças dentro de um corredor, sem cadeiras, sem nada”.

“No meio, uma lareira. Ela parou na porta e começou a jogar doces no corredor. Disse a mim mesmo: ‘Se eu sair da lareira, vou perder o meu lugar ao lado dela’. Desisti dos doces. Fiquei perto da lareira”, continuou.

Em 1946, em uma entrevista, Küchler-Silberman falou sua versão da história: “Quando apareci com os doces diante das crianças, essas crianças se atiraram em mim com muita violência e gritaram de forma assustadora”.

“Uma criança pisou na outra e uma empurrou a outra… Essas crianças me empurraram completamente contra a parede, e a madre superiora teve que me resgatar. E estas eram todas crianças de dois a cinco anos”, descreveu.

Do grupo, a enfermeira levou cinco crianças judias (três meninos e duas meninas) para se juntarem a um grupo de 100 pessoas. Elas viajaram entre Tchecoslováquia e França antes de, em um grupo menor, migrarem para Israel em 1949.

O menino, que havia recebido na Polônia o nome de Piotr Korczak, foi adotado e seu nome foi mudado. Atualmente, ele vive no norte de Israel, tendo trabalhado grande parte da vida em caminhões.

Em busca do passado

A história de Koray só não permaneceu um mistério graças ao trabalho de Magdalena Smoczyńska, professora emérita da Jagiellonian University. Por meia década, ela investigou o destino de cerca de 100 crianças que sobreviveram ao Holocausto e acabaram em orfanatos, incluindo o de Zakopane.

No meio do ano passado, ela abordou Koray e pediu uma amostra de seu DNA para usá-lo na tentativa de encontrar outras pessoas. Ann Meddin Hellman acabou sendo localizada em setembro. Do outro lado do mundo, Hellman foi informada sobre a conexão.

“O nome dele não significava nada para mim”, admitiu. Mas graças ao trabalho do especialista em genealogia Daniel Horowitz, uma árvore genealógica foi lentamente construída.

Assim, foi descoberto que o avô de Meddin Hellman, Abrahm Louis Mednitzky Meddin, tinha imigrado para os EUA em 1893, salvando, sem saber, o seu lado da família dos horrores do genocídio que se aproximava na Europa. Ele tinha um irmão, Yadidia Mednitsky, que fatalmente ficou para trás. O teste de DNA provou que Koray era provavelmente neto de Mednitsky.

“Quando a foto apareceu, meu marido e eu dissemos: ‘Esse é meu irmão’. Todos pensamos que este ramo da família foi exterminado. Encontrar Shalom é um milagre”, finalizou.

 

FABIO PREVIDELLI
Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!

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